Pelznickel: O Ajudante de São Nicolau
Na cidade de Arnis o natal era sempre uma alegria. As famílias se reuniam, a fumaça saía das chaminés, a comida era servida sempre quente e a neve caía lá fora. Os bonzinhos ganham presentes e os levados… tinham muito com o que se preocupar.
Morgana era uma garotinha saudável, cabelos loiros emaranhados na habitual trança atrás da cabeça, usava sempre o mesmo vestido vermelho escuro com detalhes brancos, um colar de ferro no pescoço levando uma foto da família toda reunida. Talvez pela aparência frágil e delicada, ou pelos olhos azuis encantadores, todos sempre acreditaram em suas mentiras, menos as crianças. Jogava pedras nos ninhos dos pássaros, chutava os cães nas ruas, roubava a água das ovelhas, pisava nas plantações, desprezava outras crianças e idosos. Uma vez chegou até mesmo a causar a morte de uma égua. Disse ao dono que o animal tinha fugido e destruído a plantação de um dos vizinhos e o dono, furioso, enfiou um disparo no peito do pobre animal. Mas agora já é dezembro.
Época de bênçãos ou perdições. uma senhora do vilarejo que tricotava um casaco de lã um dia lhe alertou.
-Deveria cuidar com o que faz. Por logo o Pelznickel acorda, e ele detesta crianças como você.
Morgana ria com desprezo
-E o que uma sandice dita por uma velha louca poderia fazer comigo?
A senhora sacudiu a cabeça decepcionada.
Vinte e quatro de Dezembro de 1890, véspera de natal.
Morgana estava deitada em sua cama, os pais comemorando em algum bar com alguns amigos. O barulho de correntes arrastando enche o quarto de Morgana e ela pôde ter o
vislumbre de algo em sua janela. Não era humano nem animal, mas monstros não existem, não é? Antes mesmo de poder se virar na cama a janela se quebra, uma figura hedionda se
arrastando para dentro. Era alto, talvez o triplo da altura de Morgana, era peludo, pálido, tinha uma forma humana deformada e seis chifres adornavam sua cabeça. Usava roupas esfarrapadas e manchadas, trazia enroladas no corpo correntes tilintantes e um chicote de couro. Seus passos eram pesados e suficientes para arrancar lágrimas de Morgana. O detalhe mais importante: usava uma máscara de madeira talhada no formato do rosto de uma coruja, talvez fosse melhor ver a máscara do que ver seu rosto. Agarrou Morgana pelos braços, colocando seu corpo trêmulo nos ombros e dando um pequeno rosnado. Enquanto caminhava e Morgana congelava, cantarolava rouco “Picotar, temperar, fritar e cozir… Criança má eu vou levar, nenhum pedaço dividir, na minha panela eu vou jogar”. Morgana se debatia, chorava e gritava, mas ninguém vinha ajudar. A última coisa que viu antes que o
Pelznickel a jogasse na neve foi o rosto da idosa observando tudo na janela com um sorriso. Maldita velha vingativa. depois desse dia, Morgana nunca mais foi vista, mas há quem diga
que seus ossos estavam na frente de uma caverna, seu corpo só foi identificado por causa do colar e os fios dourados espalhados pela neve e galhos. Pelznickel tinha feito seu trabalho muito bem, naquele natal. Teve uma deliciosa ceia, até porque, quanto pior a criança melhor o gosto.
Úrsula Manuela Imme
Isso é muito bacana as pessoas escrevem sobre a tradição e isso diz muito da tradição de Guabiruba como ela é importante na região.
Fonte: Fabiano Siegel.