quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O conto de Úrsula.

Pelznickel: O Ajudante de São Nicolau


Na cidade de Arnis o natal era sempre uma alegria. As famílias
se reuniam, a fumaça saía das chaminés, a comida era servida
sempre quente e a neve caía lá fora. Os bonzinhos ganham
presentes e os levados… tinham muito com o que se
preocupar.
Morgana era uma garotinha saudável, cabelos loiros
emaranhados na habitual trança atrás da cabeça, usava
sempre o mesmo vestido vermelho escuro com detalhes
brancos, um colar de ferro no pescoço levando uma foto da
família toda reunida. Talvez pela aparência frágil e delicada, ou
pelos olhos azuis encantadores, todos sempre acreditaram em
suas mentiras, menos as crianças. Jogava pedras nos ninhos
dos pássaros, chutava os cães nas ruas, roubava a água das
ovelhas, pisava nas plantações, desprezava outras crianças e
idosos. Uma vez chegou até mesmo a causar a morte de uma
égua. Disse ao dono que o animal tinha fugido e destruído a
plantação de um dos vizinhos e o dono, furioso, enfiou um
disparo no peito do pobre animal. Mas agora já é dezembro.
Época de bênçãos ou perdições. uma senhora do vilarejo que
tricotava um casaco de lã um dia lhe alertou.
-Deveria cuidar com o que faz. Por logo o Pelznickel acorda, e ele detesta crianças como você.
Morgana ria com desprezo
-E o que uma sandice dita por uma velha louca poderia fazer
comigo?
A senhora sacudiu a cabeça decepcionada.
Vinte e quatro de Dezembro de 1890, véspera de natal.
Morgana estava deitada em sua cama, os pais comemorando
em algum bar com alguns amigos. O barulho de correntes
arrastando enche o quarto de Morgana e ela pôde ter o
vislumbre de algo em sua janela. Não era humano nem animal,
mas monstros não existem, não é? Antes mesmo de poder se
virar na cama a janela se quebra, uma figura hedionda se
arrastando para dentro. Era alto, talvez o triplo da altura de
Morgana, era peludo, pálido, tinha uma forma humana
deformada e seis chifres adornavam sua cabeça. Usava
roupas esfarrapadas e manchadas, trazia enroladas no corpo
correntes tilintantes e um chicote de couro. Seus passos eram
pesados e suficientes para arrancar lágrimas de Morgana.O
detalhe mais importante: usava uma máscara de madeira
talhada no formato do rosto de uma coruja, talvez fosse melhor
ver a máscara do que ver seu rosto. Agarrou Morgana pelos
braços, colocando seu corpo trêmulo nos ombros e dando um
pequeno rosnado. Enquanto caminhava e Morgana congelava,
cantarolava rouco “Picotar, temperar, fritar e cozir… Criança
má eu vou levar, nenhum pedaço dividir, na minha panela eu
vou jogar”. Morgana se debatia, chorava e gritava, mas
ninguém vinha ajudar. A última coisa que viu antes que o
Pelznickel a jogasse na neve foi o rosto da idosa observando
tudo na janela com um sorriso. Maldita velha vingativa. depois
desse dia, Morgana nunca mais foi vista, mas há quem diga
que seus ossos estavam na frente de uma caverna, seu corpo
só foi identificado por causa do colar e os fios dourados
espalhados pela neve e galhos. Pelznickel tinha feito seu
trabalho muito bem, naquele natal. Teve uma deliciosa ceia, até
porque, quanto pior a criança melhor o gosto.

Úrsula Manuela Imme 


Isso é muito bacana as pessoas escrevem sobre a tradição e isso diz muito da tradição de Guabiruba como ela é importante na região.

Fonte: Fabiano Siegel.


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